Momentos
Na Morte de José Mariano Gago
O falecimento prematuro do Prof. Mariano Gago foi uma grande perda para a Ciência, a Academia e o País. Numerosas intervenções realçaram a dimensão da sua acção reformadora e o impulso dado à investigação científica. Falou-se menos do seu empenhamento na renovação da Universidade o qual suscitou controvérsia importante na época. Necessidade de uma cultura de avaliação rigorosa e externa, novo modelo de organização, abertura à sociedade, maior accountability pública dos seus dirigentes e a possibilidade de estatuto fundacional, foram questões controversas e com impacto público. José Mariano Gago foi personalidade invulgar no horizonte politico que nos tem governado. Foi um cientista que trouxe à Política uma convicção, uma missão indeclinável e uma estratégia: colocar a Ciência como vector fundamental do progresso da sociedade portuguesa e da afirmação internacional do País. Para isso aplicou o rigor do método científico: análise objectiva dos problemas, firmeza na resolução, determinação e coragem na acção.
Não o conhecia pessoalmente, mas não fora indiferente à sua acção como dirigente da Associação de Estudantes do IST e apreciara a sua actuação no governo Guterres. Em 2006, já Director da Faculdade de Medicina, recebi no consultório e a seu pedido o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – MCTES, sigla complexa, para um Ministério difícil mas que exprimia a sua convicção de que a Ciência e a Tecnologia seriam os vectores para a reforma do ensino superior. A visita não foi exclusivamente clínica: permitiu ao Ministro disponibilizar ao Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a maior do País, o seu contacto pessoal direto, sempre que o considerasse necessário. Foi um acto de cortesia académica e institucional invulgar! No nosso contacto de anos, guardo memória de três circunstâncias que elucidam o seu modo de agir. Primeiro, foi a reforma do ensino na Faculdade que considerava indispensável. Obtivemos um parecer de Comissão Académica internacional que a direcção da Faculdade solicitara e no qual se faziam recomendações. Quando lhe apresentei o plano de acção que poderia ter custos institucionais importantes, ouviu-me, concordou com as dificuldades potenciais e manifestou apoio discreto, mas distante, pois não era obviamente uma questão politica, mas poderia ter consequências para as quais importava alertar o Ministro. A reforma fez-se, teve o apoio dos docentes e dos alunos, sem disrupção na Casa, o ensino decorre com normalidade e a Faculdade posicionou-se numa plataforma de modernidade pedagógica. Um outro problema foi a necessidade de promover maior colaboração entre a Saúde e a Educação na gestão e organização dos hospitais ditos escolares, que uma legislação anterior reduzira a hospitais nucleares de ensino. Era um problema premente e antigo. Mas as circunstâncias eram favoráveis nesse período de 2007 a 2008. O Ministro da Saúde percebera que era prioridade dotar o maior hospital do País dos meios financeiros para a sua modernização imperativa e nessa estratégia não ignorava a Faculdade. Por outro lado, tinha sido possível estabelecer uma entendimento e cooperação leal e franca com o Presidente do Conselho de Administração do Hospital. Propusémos um novo modelo de organização para a Faculdade e o seu Hospital, adoptando o conceito de Centro Académico de Medicina, tendo o Instituto de Investigação como parceiro, procurando adaptar o modelo holandês que conhecia bem, da colaboração académica e profissional com a medicina académica na Holanda. Era preciso apresentar o projecto superiormente e com a ajuda de Fernando Lopes da Silva, académico radicado na Holanda e de Alexandre Ribeiro, subdirector, preparámos a reunião com o Ministro. Foi uma conversa difícil, serena e muito objectiva; creio que procurava perceber a verdadeira dimensão do nosso empenhamento. Recebeu-nos depois, com o Presidente do Conselho de Administração do HSM, e com o Reitor da Universidade de Utreque, que convidáramos para falar em sessão pública sobre o modelo de Centro Académico de Medicina, em vigor na Holanda. Manteve um diálogo informado e relevante e obtivemos o seu apoio. Após mudança de Ministro da Saúde, foi Mariano Gago que se disponibilizou a falar com a nova titular precedendo a nossa conversa formal e teve papel relevante na redacção da Portaria publicada no DR de 2009, assinada pelos Ministros Ana Jorge e Mariano Gago na qual foi criado o Centro Académico de Medicina de Lisboa, um consórcio da Faculdade, do Hospital e do IMM. Na sessão pública em que assinámos documento de compromisso, fez uma intervenção objectiva, exigente e com perspectiva para o Futuro. O caminho então iniciado não tem sido isento de escolhos, mas o projecto continua, foi incorporado pelos novos gestores políticos, tem nova direcção que estou certo continuará o percurso iniciado. A ocasião teve ainda um significado especial; marcou o empenhamento público dos dois Ministros num assunto tão relevante para o futuro da Educação Médica em Portugal e para a governação das unidades hospitalares académicas, potenciador de sinergias e de melhor aproveitamento dos recursos. O terceiro momento marcou um conflito entre a posição do Ministro e a direcção da Faculdade, sobre a construção do novo edifício, agora com o nome de Reynaldo dos Santos, no campus académico de Santa Maria. A decisão tinha sido desfavorável, invocando que a Faculdade não precisava de mais espaço. Foi argumentação determinada e difícil, o objectivo era promover a convergencia entre as ciências biomédicas e a engenharia e ter condições para crescer, para incorporar novas iniciativas, novos projectos. Mudou a sua decisão e foi possível iniciar a construção ainda em 2010, esperando-se a sua conclusão em 2015, ultrapassadas as vicissitudes próprias da época difícil que se viveu. Guardo, pois, memória grata de um contacto institucional franco, muito exigente mas sempre cordial. Tivemos divergencias inultrapassáveis, como o alargamento do numerus clausus para Medicina e abertura da nova escola médica no Algarve. Da sua política global só o tempo permitirá apreciação mais objectiva e rigorosa da sua política, a qual, para alguns críticos, terá menorizado a Universidade em detrimento de novas instituições científicas com outra independência e outro enquadramento jurídico. Na minha opinião acho que tomou a decisão certa, seria muito mais difícil mover a Universidade e foi pena que o seu projecto fundacional não tivesse tido outra aceitação, pois a Universidade teria outra autonomia e capacidade de actuação sem os constrangimentos das normas da função pública. Essa mudança é necessária, vai requerer um debate profundo, toca a verdadeira essência da missão, autonomia e independência da Universidade e é urgente, num mundo global e competitivo como o actual, porque o País precisa de menos e melhores Universidades. Esse debate e essa mudança serão também tributo à inteligência e visão de José Mariano Gago.
José Fernandes e Fernandes
Director da FMUL
Não o conhecia pessoalmente, mas não fora indiferente à sua acção como dirigente da Associação de Estudantes do IST e apreciara a sua actuação no governo Guterres. Em 2006, já Director da Faculdade de Medicina, recebi no consultório e a seu pedido o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – MCTES, sigla complexa, para um Ministério difícil mas que exprimia a sua convicção de que a Ciência e a Tecnologia seriam os vectores para a reforma do ensino superior. A visita não foi exclusivamente clínica: permitiu ao Ministro disponibilizar ao Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a maior do País, o seu contacto pessoal direto, sempre que o considerasse necessário. Foi um acto de cortesia académica e institucional invulgar! No nosso contacto de anos, guardo memória de três circunstâncias que elucidam o seu modo de agir. Primeiro, foi a reforma do ensino na Faculdade que considerava indispensável. Obtivemos um parecer de Comissão Académica internacional que a direcção da Faculdade solicitara e no qual se faziam recomendações. Quando lhe apresentei o plano de acção que poderia ter custos institucionais importantes, ouviu-me, concordou com as dificuldades potenciais e manifestou apoio discreto, mas distante, pois não era obviamente uma questão politica, mas poderia ter consequências para as quais importava alertar o Ministro. A reforma fez-se, teve o apoio dos docentes e dos alunos, sem disrupção na Casa, o ensino decorre com normalidade e a Faculdade posicionou-se numa plataforma de modernidade pedagógica. Um outro problema foi a necessidade de promover maior colaboração entre a Saúde e a Educação na gestão e organização dos hospitais ditos escolares, que uma legislação anterior reduzira a hospitais nucleares de ensino. Era um problema premente e antigo. Mas as circunstâncias eram favoráveis nesse período de 2007 a 2008. O Ministro da Saúde percebera que era prioridade dotar o maior hospital do País dos meios financeiros para a sua modernização imperativa e nessa estratégia não ignorava a Faculdade. Por outro lado, tinha sido possível estabelecer uma entendimento e cooperação leal e franca com o Presidente do Conselho de Administração do Hospital. Propusémos um novo modelo de organização para a Faculdade e o seu Hospital, adoptando o conceito de Centro Académico de Medicina, tendo o Instituto de Investigação como parceiro, procurando adaptar o modelo holandês que conhecia bem, da colaboração académica e profissional com a medicina académica na Holanda. Era preciso apresentar o projecto superiormente e com a ajuda de Fernando Lopes da Silva, académico radicado na Holanda e de Alexandre Ribeiro, subdirector, preparámos a reunião com o Ministro. Foi uma conversa difícil, serena e muito objectiva; creio que procurava perceber a verdadeira dimensão do nosso empenhamento. Recebeu-nos depois, com o Presidente do Conselho de Administração do HSM, e com o Reitor da Universidade de Utreque, que convidáramos para falar em sessão pública sobre o modelo de Centro Académico de Medicina, em vigor na Holanda. Manteve um diálogo informado e relevante e obtivemos o seu apoio. Após mudança de Ministro da Saúde, foi Mariano Gago que se disponibilizou a falar com a nova titular precedendo a nossa conversa formal e teve papel relevante na redacção da Portaria publicada no DR de 2009, assinada pelos Ministros Ana Jorge e Mariano Gago na qual foi criado o Centro Académico de Medicina de Lisboa, um consórcio da Faculdade, do Hospital e do IMM. Na sessão pública em que assinámos documento de compromisso, fez uma intervenção objectiva, exigente e com perspectiva para o Futuro. O caminho então iniciado não tem sido isento de escolhos, mas o projecto continua, foi incorporado pelos novos gestores políticos, tem nova direcção que estou certo continuará o percurso iniciado. A ocasião teve ainda um significado especial; marcou o empenhamento público dos dois Ministros num assunto tão relevante para o futuro da Educação Médica em Portugal e para a governação das unidades hospitalares académicas, potenciador de sinergias e de melhor aproveitamento dos recursos. O terceiro momento marcou um conflito entre a posição do Ministro e a direcção da Faculdade, sobre a construção do novo edifício, agora com o nome de Reynaldo dos Santos, no campus académico de Santa Maria. A decisão tinha sido desfavorável, invocando que a Faculdade não precisava de mais espaço. Foi argumentação determinada e difícil, o objectivo era promover a convergencia entre as ciências biomédicas e a engenharia e ter condições para crescer, para incorporar novas iniciativas, novos projectos. Mudou a sua decisão e foi possível iniciar a construção ainda em 2010, esperando-se a sua conclusão em 2015, ultrapassadas as vicissitudes próprias da época difícil que se viveu. Guardo, pois, memória grata de um contacto institucional franco, muito exigente mas sempre cordial. Tivemos divergencias inultrapassáveis, como o alargamento do numerus clausus para Medicina e abertura da nova escola médica no Algarve. Da sua política global só o tempo permitirá apreciação mais objectiva e rigorosa da sua política, a qual, para alguns críticos, terá menorizado a Universidade em detrimento de novas instituições científicas com outra independência e outro enquadramento jurídico. Na minha opinião acho que tomou a decisão certa, seria muito mais difícil mover a Universidade e foi pena que o seu projecto fundacional não tivesse tido outra aceitação, pois a Universidade teria outra autonomia e capacidade de actuação sem os constrangimentos das normas da função pública. Essa mudança é necessária, vai requerer um debate profundo, toca a verdadeira essência da missão, autonomia e independência da Universidade e é urgente, num mundo global e competitivo como o actual, porque o País precisa de menos e melhores Universidades. Esse debate e essa mudança serão também tributo à inteligência e visão de José Mariano Gago.
José Fernandes e Fernandes
Director da FMUL
