Espaço S ao serviço do estudante
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logotipo do espaço S

Uma equipa que trabalha diariamente no acompanhamento psicológico dos estudantes da Faculdade de Medicina.

Nasceu em 2013 com o objetivo de ajudar os estudantes a manter a sua saúde mental. Muitos destes alunos estão a viver uma realidade nova e experimentam dificuldades na sua adaptação. Para além disso, sentem a pressão dos exames e de corresponder ás expectativas dos professores, da família e às suas próprias exigências. Tudo isto acaba por potenciar episódios de ansiedade, e pressão e em alguns casos sintomatologia depressiva. Esta semana celebrou-se o Dia do Combate à Depressão e aproveitando o tema, fomos descobrir este espaço.

Desde que abriu portas, numa primeira fase no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da ULS Santa Maria, e a partir de 2017 já integrado no Núcleo de Apoio ao Estudante (NAE), e com local de atendimento no Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública, o número de atendimentos tem vindo sempre a aumentar, havendo mesmo lista de espera.

O Espaço S tem várias ferramentas de apoio desde as consultas individuais à psicoterapia sendo os casos identificados como mais graves, enviados para o Serviço de Psiquiatria da ULSSM com quem mantém contacto desde a sua génese pela mão do Psiquiatra Daniel Sampaio.

Os estudantes são um grupo vulnerável, mas os estudantes deslocados são quem mais recorre a este apoio e percebe-se porquê.

O NAE desenvolve várias iniciativas que têm o papel de ativar estratégias para gerir melhor a ansiedade, por exemplo em época de exames, e intervir como prevenção num quadro de saúde mental. Exemplo disso é este Conversas ao Final da Tarde “Gerir a ansiedade em épocas de exame” (inscrições:https://fmul.up.events/activities/view/11874) que vai decorrer no dia 16. Falámos com Iolanda Queiroz, psicóloga do Espaço S e que fez uma leitura dos desafios dos estudantes, com os quais a equipa do Espaço S se tem confrontado.

 

“Muitos apresentam quadros de perturbação de ansiedade, pânico, depressão, alterações ao nível do comportamento alimentar, do sono e estratégias de autocuidado pouco investidas ou consistentes, entre outras situações que temos vindo a identificar”

 

pessoa sentada numa cadeira com pedra nas costas como se sentisse o peso do mundo

FMUL - No geral, como está a saúde mental dos estudantes da FMUL?

Iolanda Queiroz - Falar de saúde mental de uma forma geral será sempre uma tarefa difícil, tendo em conta que cada jovem tem as suas características individuais, o seu contexto, e a sua história familiar e pessoal, e todos esses fatores atuam como fatores diferenciadores dos quadros de saúde mental que vamos encontrando. Contudo, pelo elevado número de pedidos que temos recebido, verificamos que os estudantes da FMUL estão cada vez mais atentos à sua saúde mental e o impacto desta para o seu sucesso académico e profissional. São jovens cada vez mais conscientes da importância do autocuidado. No entanto, dada a exigência que sentem a nível académico, muitas vezes, descuram necessidades pessoais e sociais, o que tem efeitos adversos na sua saúde mental. Muitos apresentam quadros de perturbação de ansiedade, pânico, depressão, alterações ao nível do comportamento alimentar, do sono e estratégias de autocuidado pouco investidas ou consistentes, entre outras situações que temos vindo a identificar.
Existem vários fatores que podem, em cada caso, explicar os sintomas que observamos nas consultas

sendo que de uma forma geral são jovens com elevados níveis de perfecionismo e autoexigência, que quando confrontados com dificuldades com as quais nunca se depararam anteriormente, podem sentir dificuldades em corresponder às suas expetativas e às dos outros (professores, colegas, família), o que, em muitas situações, gera ansiedade e sintomas depressivos entre outra sintomatologia. Importa igualmente referir, que existem estudantes cuja sintomatologia era prévia ao ingresso na universidade, sendo que o contexto e os desafios inerentes a esta adaptação vieram a contribuir para um agravamento da mesma.  

A intervenção psicológica tem efeitos documentados e visíveis na diminuição da sintomatologia e na ativação dos recursos psicológicos por parte dos estudantes, e no seu funcionamento psicológico, e que decorrem em muito da relação terapêutica estabelecida

“Alguns tendem a sentir a falta de elementos culturais e identitários, e podem sentir-se isolados da restante população universitária. Alguns destes estudantes são provenientes de países fora da União Europeia onde o sistema de ensino é diferente…”

 

FMUL - Qual a população mais vulnerável, de entre os estudantes?

Iolanda Queiroz - De entre os estudantes em geral, os estudantes deslocados -que vêm de outras cidades do país, das ilhas, ou de outros países – poderão enfrentar desafios acrescidos. Estes estudantes estão muitas vezes longe dos seus pais, família e amigos pela primeira vez, alguns são bolseiros, ou têm menos recursos financeiros disponíveis, aumentando exponencialmente a exigência para consigo próprios e pressão sentida face ao sucesso académico. Para muitos é a primeira vez que estão a viver autonomamente, a gerir as tarefas do dia-a-dia, fazer compras, confecionar as suas refeições, ao que acresce todas as tarefas académicas. Alguns tendem a sentir a falta de elementos culturais e identitários, e podem sentir-se isolados da restante população universitária. Alguns destes estudantes são provenientes de países fora da União Europeia onde o sistema de ensino é diferente e enfrentam dificuldades na expressão e compreensão da língua portuguesa. Neste sentido, podem por vezes desenvolver sintomas depressivos, pela existência de sentimentos de ineficácia e dificuldade de adaptação. De forma a colmatar estas situações e de efetivamente dar um apoio ao nível da integração destes jovens, o Espaço S, criou, o grupo Moving In, cujo objetivo geral é prestar apoio às dificuldades específicas dos estudantes deslocados na adaptação à vida fora de casa dos pais e do novo contexto académico. Paralelamente, o grupo pretende constituir um espaço que estimule a interação espontânea entre os participantes, sem julgamentos e que promova a socialização e o relacionamento dentro e fora do grupo.

 

“Existe uma lista de espera para o acompanhamento psicológico individualizado, dado ser a resposta que mais recursos necessita para ser efetuado (recursos físicos e humanos)”

 

infografia da procuro dos servoçps do espaço S em anos

FMUL - Qual o trâmite para aceder a consultas com psicólogos do espaço S?

Iolanda Queiroz - Os estudantes que desejem aceder às consultas com psicólogos no espaço S têm toda a informação no site da Faculdade de Medicina, devem solicitar a  avaliação inicial, através do preenchimento do formulário "Pedido de Avaliação Inicial", nesta consulta de triagem, e após avaliação do psicólogo será dada a resposta mais adequada ao problema apresentado, os estudantes podem ser encaminhados para sessões de follow up, sessões psicoeducativas, grupo terapêutico, acompanhamento psicológico individualizado. O estudante participa igualmente no processo de decisão sobre a resposta adequada à sua situação, uma vez que a sua motivação é imprescindível para a mudança e diminuição de sintomatologia.   Existe uma lista de espera para o acompanhamento psicológico individualizado, dado ser a resposta que mais recursos necessita para ser efetuado (recursos físicos e humanos).

 

O Espaço S conta com 4 psicólogos em part-time e um estagiário profissional de psicologia, o que neste momento, identificamos como não sendo suficiente para uma resposta imediata, como seria desejável, existindo sempre tempo de espera de alguns meses. Durante este tempo de espera e caso seja considerado como benéfico o estudante pode frequentar sessões de follow up, que são efetuadas com menor regularidade comparativamente a um acompanhamento psicológico individual regular. Importa ainda salientar que é dado igualmente ao estudante a conhecer outros recursos para acederem a apoio psicológico individual, fora do Espaço S, como por exemplo, a medida do cheque psicólogo.

 

“…verificamos maior consciência da importância da saúde mental e menor estigma na procura de apoio psicológico, como se observava anteriormente”

 

FMUL - Há uma tendência crescente para haver mais casos? Quais as causas?

Iolanda Queiroz - Efetivamente assistimos a uma procura cada vez maior do Espaço S, em especial do acompanhamento psicológico individualizado, verificamos maior consciência da importância da saúde mental e menor estigma na procura de apoio psicológico, como se observava anteriormente. A procura de apoio psicológico, na resolução de sintomatologia, é atualmente sentida como autocuidado e não é criticada socialmente, cada vez mais os jovens dão importância à sua saúde mental e física, têm hábitos mais saudáveis ou procuram tê-los e não procrastinam na procura de ajuda. Importa salientar que verificamos também um aumento de perturbações de ansiedade e pânico nas épocas de avaliação, sintomatologia depressiva, entre outras, alguns estudantes apresentam sintomatologia mais grave e que já se verificava antes da frequência universitária, e acabam por procurar ajuda também por indicação de quem lhes está mais próximo, sejam colegas que já estão a ser acompanhados em consulta de psicologia, ou nos grupos terapêuticos, ou por professores, entre outros funcionários que os apoiam em momentos de maior fragilidade. Importa, contudo, salientar que também existem situações cuja resposta mais adequada seria no Sistema Nacional de Saúde, contudo dada ausência da mesma ou a demora em conseguir, procuram o Espaço S.

 

Créditos de imagem: Freepik