Hoje é dia mundial do sono
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O regresso ao futuro: reflexões sobre um sono adaptado à nova realidade no dia mundial do sono

Fotografia Doutor Miguel Meira e Cruz

Foi ontem que o tempo parou. Naquele Março fatal, quando, em Portugal e no mundo europeu, as avenidas se despiram dos transeuntes habituais sobre as calçadas, e o alcatrão parecia chorar a saudade de ser pisado. O silêncio aterrador, foi, sem qualquer exagero, um dos motivos de suspiro e de consternação. Faltavam o sol, as vozes e as buzinadelas. O ar lá fora parecia agora ser melhor, mas não o podíamos respirar sem culpa. E aquele que acumulávamos em casa, parecia voltar-se contra nós, azedando os ambientes com mau humor e dor de cabeça. Em muitos sofás, permaneceram marcas de corpos sentados, deitados ou que, sem posição certa, caíram para o tapete das salas. As cozinhas funcionaram. E os corpos, que em repouso mantido, pareciam lutar contra escaras, aumentaram de tamanho. De volume, melhor dizendo. A noite confundiu-se várias vezes com o dia, que Baco ajudava a esquecer. E muitos dias, ainda que a primavera tentasse contrariar, mantiveram-se sombrios. As mulheres choraram e irritaram os homens. Muitos homens irritados, sem conseguir entendê-las, choraram também. E nisto, os filhos, entregues aos computadores e tecnologias diversas, autonomizaram-se no espaço que conheciam e ditaram regras. As horas da cama foram talvez as mais polidas, até porque muitos despertadores deixaram de anunciar as manhãs. E se os avós faziam sestas, estas agora eram permitidas a todos, ainda que a horas distintas. E o início da noite era alegre para quem dividia o espaço apertado. Todos à mesa e todos a volta da televisão. Depois, só alguns acordados, até que, sucedeu em várias circunstâncias, só o nascer do sol fazia dormir os restantes.

Talvez o romance não faça adivinhar o sarcasmo com que redigi as linhas anteriores. Talvez não seja inequívoca a ironia, porque numa boa parte desse mês de Março eu fiz o mesmo. E quando apagava a televisão, para me desligar dos gráficos que mostravam o desenvolvimento dos números da pandemia, debruçava-me sobre alguns trabalhos que estava a escrever com colegas internacionais, que talvez se manifestassem também sem dar voz às letras. Dois desses trabalhos referiam-se exatamente à forma como o tempo que vivíamos poderia afetar-nos e como. Em conjunto com os colegas David Gozal, de Missouri, nos Estados Unidos e Masaaki, de Osaka, no Japão, escrevi o primeiro documento que trouxe evidência a interação possível entre o vírus, o sistema temporal endógeno e o sono. Neste artigo, que viria a ser publicado num dos jornais de referência na medicina respiratória Europeia, postulámos que os mecanismos relacionados com o relógio circadiano e com o sono podem interagir com as proteínas do vírus e das células do hospedeiro alterando o risco de infeção bem como a resposta imunitária associada à mesma. Eu, que há muito confio na influência que o desacerto do relógio pode ter na nossa vida, conquistei a amizade do David, com quem tenho vindo a colaborar nalguns outros “ensaios” sobre o impacto do desalinhamento circadiano nas funções cardiovascular e metabólica. Este, pode de resto, ser também, um processo chave nas complicações da infeção por este coronavírus. Com o prorrogar sucessivo do primeiro confinamento, foi possível apreciar o efeito “Big Brother” nas rotinas e nos hábitos das pessoas. Assinei então, com colegas americanos e israelitas, um artigo com grande impacto, em que, perante um universo de 4084 indivíduos dividido em 2 cortes (uma com 49 países, e outra americana), concluímos que 58% dos inquiridos estavam insatisfeitos com o seu sono e que 40% tinha diminuído a qualidade de sono após a crise COVID. O consumo de medicamentos para dormir, aumentara, nestas circunstâncias 20%. Também numa amostra de 3 centenas de adolescentes, dessa vez no Brasil, verificámos que a qualidade de sono diminuiu em tempo de confinamento, e que, pelo menos em parte, isso se deveu a alterações nos relógios biológicos. Parecia efetivamente que o mundo estava a mudar... para pior. Era, nestas condições, urgente precaver que, na tentativa de retorno ao que supusemos ser a nova normalidade, deitássemos por água abaixo os ganhos conseguidos enquanto reféns desse inimigo tão microscópico quanto aterrador, e para isso desenhámos algumas propostas de recomendações clínicas, tendo em conta o que íamos aprendendo todos os dias. Os meses foram passando e a esperança de que o vírus se cansasse com o verão, foram dissipadas pelo número de infeções e de mortos que iam mantendo o alarme. No Natal, com o frio, mais dos desarranjos sociais do que da temperatura, as restrições constituíram, ao que parece, uma medida dura, com bons contornos. É que, ao contrário do que é habitual nessa época do ano, entre o Natal e o Fim de Ano, diminuíram acidentes na estrada, e consequentemente mortes. Também dentro das casas houve mudanças, como, pela inevitabilidade da solidão, diminuíram também os excessos e se mantiveram horários próximos da normalidade do dia comum. Tive oportunidade de escrever, e de explicar porquê num contexto filosófico-científico de um editorial recentemente aceite na Sleep Science, que esse pode efetivamente ter sido um impulso para um início de ano mais promissor... quem sabe, com atitudes mais positivas. E agora que meio mundo voltou a estar confinado, cabe-nos refletir, e evocar o sono para apoio na reflexão. O mundo fez um desvio. As vidas sofreram alterações. Os postos de trabalho são agora menos variáveis no espaço, mas o tempo parece que é mais pesado, dá ideia, e transparece no cansaço, que se trabalha mais horas, quero eu dizer. Mas quem espreitar à janela, durante estes dias que antecedem uma nova estação, conseguem certificar-se de que o sol se mantém ali. E que cede lugar à lua, todos os dias, mesmo quando não a conseguimos ver. A luz e a escuridão, intercalam e encontram-se a horas certas em determinado ponto do ciclo, e o sono, por mais que o tentemos evitar, chegará sempre, em tempo oportuno, e na quantidade que lhe for permitida. Sabemos que se o fizermos, viveremos provavelmente melhor, capazes de alcançar, daqui a mais um ano, talvez, um novo Dia Mundial do Sono, com um sorriso diferente, menos amarelo. E mais do que tudo, um regresso ao futuro de onde poderíamos não ter saído, mas que, por ironia da vida e das palavras nos deixaria sem sonhos. Seria triste, não é?

Miguel Meira e Cruz
Diretor da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa, Faculdade de Medicina