Hoje é dia mundial da saúde oral
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Saúde Oral – o que está a mudar?

Fotografia do Doutor David Ângelo

Houve tempos em que a atividade clínica da cavidade oral estava sobretudo limitada aos tratamentos dentários, ou, como meio de acesso para observação da orofaringe e sistema digestivo. No entanto, cada vez mais, a comunidade científica parece ter maior interesse em estudar a relação da patofisiologia de algumas doenças com envolvimento sistémico com a própria cavidade oral.

Estudos recentes reforçam cada vez mais a associação entre doenças da cavidade oral e doenças sistémicas. Para comemorar o dia mundial da saúde oral decidi abordar algumas dessas relações, como forma de alerta, para uma mudança que deve existir na forma como olhamos e cuidamos da nossa cavidade oral.

A diabetes mellitus(DM) é um excelente exemplo para começar. Adultos com DM mal controlada (HbA1C>9%) têm um risco 2.9 vezes superior de apresentar doença periodontal. Se forem fumadores esse risco é 6 vezes superior. Cada vez mais, a comunidade científica acredita que este mecanismo é bidirecional: a DM é um fator de risco para a doença periodontal e a doença periodontal é um fator de risco para a DM.  Este grupo de doentes apresenta maior prevalência de algumas lesões da cavidade oral, tais como, a língua geográfica, estomatite, queilite angular e candidíase oral. Esta relação parece também existir em doentes com hipertensão arterial (HTA). Alguns dos medicamentos usados para o tratamento da HTA, podem causar xerostomia, hiperplasia da gengiva e/ou reações liquenóides. Alguns estudos recentes parecem sugerir ainda, que a própria periodontite pode estar associada ao insucesso do tratamento da HTA. A aterosclerose e as doenças vasculares são outras entidades que parecem estar associadas à doença periodontal. Não nos podemos esquecer ainda da importância da profilaxia antibiótica na prevenção da endocardite bacteriana em doentes de risco.

Se há um tempo atrás a osteonecrose dos maxilares estava apenas associada aos bifosfonatos, hoje existem outros fármacos que estão associados à osteonecrose dos maxilares e merecem a nossa atenção.  

O cancro oral, o sexto mais comum no corpo humano, associado muitas vezes ao consumo exagerado de álcool e tabaco, surge agora cada vez mais associado ao vírus do papiloma humano (HPV), modificando o paradigma com cada vez mais casos de doentes jovens afetados. Portugal tem uma das taxas de incidência e mortalidade por cancro oral mais elevadas da Europa, com cerca de 15 casos por 100 mil habitantes. Cada vez mais, o autoexame da cavidade oral deve ser uma prática comum, permitindo identificar lesões suspeitas numa fase inicial da doença.

O microbioma da cavidade oral tem cerca de 700 microrganismos conhecidos. Este microbioma é muito influenciado pela nossa dieta, hábitos de higiene oral, estando diretamente relacionado com algumas patologias autoimunes, cardiovasculares, metabólicas e do nosso sistema digestivo. Com os avanços nas técnicas de sequenciação do genoma humano podemos prever que no futuro existam biomarcadores baseados no microbioma que nos possam ajudar a diagnosticar de forma precoce algumas destas doenças. Desta forma, reforço a importância da investigação na área da saúde oral, num prisma diferente, numa visão de interação com a patologia sistémica e com o impacto do microbioma oral que tem a vantagem de ser de fácil acesso aos clínicos e investigadores. 

 

David Ângelo

Assistant Professor - Faculty of Medicine of Lisbon University

European Society of Temporomandibular Joint Surgeons 

Clinical Director - Instituto Português da Face