“Futuro da Saúde e da Educação Médica em Portugal”
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Foi o tema escolhido para encerrar a 10ª edição do Congresso Beyond MEd, que aconteceu ontem, no Grande Auditório João Lobo Antunes.

Discutiu-se se a qualidade da formação médica e a capacidade que as faculdades têm em formar mais médicos. Qual o número de profissionais que estão neste momento em exercício no pais?  como resolver o problema da falta de clínicos e de cirurgiões, como é que o estrangeiro e o setor privado se tornaram tão atrativos e como pode o público, o SNS, posicionar-se e tornar-se competitivo? Que papel está reservado ao médico, atualmente? As novas tecnologias mudaram a essência da medicina? que fatores contribuíram para alterar as necessidades da saúde e de quem dela depende? Qual o caminho a seguir? Como podemos fazer planos a 10 ou 20 anos se desconhecemos o mapa sociológico do país no que diz respeito às necessidades médicas?  Estas foram algumas das perguntas a que os quatro participantes no debate procuraram responder.

oradores sentados à volta de uma mesa no auditório. imagem próxima

À mesma mesa juntaram-se Álvaro Beleza, Presidente do Instituto Português do Sangue, Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos, Rui Tato Marinho, Diretor Clínico do CHULN e Ana Paula Martins, Diretora do CHULN, para discutirem a realidade da medicina em Portugal. Com perguntas de João Eurico Cabral da Fonseca, Diretor da Faculdade, que assumiu o papel de moderador, foram abordadas questões como a qualidade da formação médica, o número de profissionais formados em Portugal e quantos efetivamente exercem medicina no território. De acordo com a OCDE, Portugal ocupa o segundo lugar no rácio número de médicos por habitantes, logo atrás da Grécia, mas serão estes números fiáveis?  esta é a realidade? Uma análise mais aprofundada e com o input de todos, chegou-se à conclusão que esse número diz respeito aos médicos registados na Ordem, mas sem garantia de que exercem em Portugal.  Esses números estão na posse do Ministério da Saúde.

Por mais faculdades de medicina que existam nada garante que estes se mantenham por cá e esse  é apenas um dos problemas. O SNS tem assim vários adversários; O estrangeiro, com salários e condições de trabalho mais atrativas e o privado que oferece mais ou menos o mesmo. Este é um desafio para os gestores de hospitais públicos e quando questionada sobre quais as estratégicas para conseguir atrair e manter mais médicos no SNS, avançou que enquanto administradora a sua função é a de preservar o património que lhe é dado a administrar e nesse sentido a sua opinião passa por desenvolver uma atitude de “proteger o tempo dos médicos para tarefas de valor acrescentado” e promovendo, “a inovação para a transição digital,” uma das ferramentas que pode aligeirar o dia a dia dos médicos nomeadamente nas tarefas burocráticas. “Os médicos devem ser reservados para aquilo que fazem bem” e nesse a propósito, “dar mais possibilidades de fazerem investigação,” outro exemplo. Assumiu que há valores impossíveis de alcançar no setor público, e por isso, desenvolver estratégias para “compensar aquilo que não podemos pagar”, é urgente. Álvaro Beleza, um otimista por natureza, destacou a qualidade do SNS que fica sempre nos 15 melhores classificados do mundo, competindo apenas com o futebol que está no mesmo patamar, quando comparado com os demais. “Não há mais nenhuma área onde estejamos tão bem classificados como a saúde ou o futebol,” garantiu, realçando ainda “a tranquilidade do país” que é também uma mais valia.

plateia e oradores

A falta de médicos é um assunto preocupante. Os que se formam não garantem a permanência no país e os que estão à beira da reforma, a sua saída, põe em causa a existência de serviços em todo o território, com especial incidência no interior, mas destacando o Alentejo e a Guarda que são zonas preocupantes de acordo com o discurso do bastonário. As exigências da saúde são também diferentes, “se antigamente as urgências faziam-se com dois internos, um de especialidade e outro do ano comum, hoje nem sei se 10 assegurariam,” disse.

Tato Marinho aposta nas competências extracurriculares e acredita que motivar equipas e ter médicos felizes, é a chave para o sucesso. Enquanto gestor de recursos humanos evidenciou a necessidade de dar formação na “área da inteligência emocional, gestão de conflitos, resiliência, empatia, capacidade de trabalhar em equipa ou humildade”, dizendo que a sua preocupação diária passa por garantir a felicidade dos 1500 médicos que gere.

A qualidade das lideranças estava em cima da mesa, e a esse respeito Ana Paula Martins disse:” Podem ser mais ou menos exuberantes, mais ou menos serenas”, mas cumprem a sua razão de ser “desde que tenham a capacidade de atrair e de mobilizar”.

Sobre o papel do médico face às alterações de valores e de prioridades na sociedade Álvaro Beleza lembrou “nós somos cada vez mais os intermediários entre a vida e a morte”, um papel que antes era dividido com o padre, mas que com a perda de influência da religião na sociedade, “o médico” passou a ser “o único interlocutor”, final. “Somos o baluarte da ética, dos valores e somos cuidadores. As pessoas depositam em nós a confiança e sentem-se pequenas porque estão em sofrimento e por isso as qualidades empáticas, humanas, continuam a não poder ser suplantadas pelas novas tecnologias, não podendo os médicos perder esse cuidado”.

Deixou ainda em jeito de conclusão, este conselho à plateia, maioritariamente preenchida por estudantes de medicina, “têm de andar na vida com disponibilidade para dizer que sim e ser solidários com os outros”, admitindo que este é uma das qualidades que o médico não deve abdicar.

imagem geral do auditório

Quanto ao futuro da medicina e da saúde ficou patente a necessidade de ser criado um plano, baseado no “levantamento sociológico da população”, como referiu Carlos Cortes, “para poder programar as doenças que vão predominar na população, bem como fazer o levantamento do número de médicos e das especialidades que existem”, só depois “vamos ter ideia das necessidades dos utentes e das regiões”, garantiu.

três pessoas da organização em cima do palco

No final a organização do Congresso subiu ao palco para agradecer aos participantes e a todos os que fizeram desta 10 edição, mais um sucesso!