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Prof. Doutor Fausto J. Pinto

O Professor Doutor João Lobo Antunes, Professor Catedrático Emérito da FMUL faleceu no dia 27 de Outubro de 2016.

A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e toda a Academia Portuguesa ficaram mais pobres, com o desaparecimento de um dos maiores vultos de sempre da Medicina contemporânea. Possuidor duma personalidade marcante, que influenciou os destinos de tudo e de todos por onde passou, em particular a sua Faculdade e o seu Hospital. Ninguém ficará, pois, indiferente ao seu desaparecimento. Ao longo dos anos foi fonte inspiradora para muitos dos que se cruzaram com ele e que dele guardam as melhores recordações.

A sua vida institucional foi muito relevante. Desempenhou com brilho e dedicação várias funções institucionais, incluindo, na Faculdade de Medicina, a de Presidente do Conselho Pedagógico (1988-1995), Presidente do Conselho Científico (de 1996 a 2004) e de Presidente da Assembleia de Representantes/Assembleia da Faculdade/Conselho de Escola (de 2005 a 2013). Foi um Professor empenhado e exemplar em todos os movimentos de renovação da sua Faculdade de Medicina, nos quais participou com grande interesse, motivação e empenhamento. A si ficará sempre associado o Instituto de Medicina Molecular (IMM), que ajudou a criar e a que presidiu desde o início e até à sua Jubilação. Foi ainda um dos motores por trás da criação da Universidade de Lisboa (UL), resultante da fusão da Universidade Clássica com a Universidade Técnica de Lisboa.

A sua obra académica e pedagógica continuará e estou certo que o futuro da Neurocirurgia na Instituição será um tributo à sua memória e à sua visão moderna e aberta aos novos desafios do Tempo.

À sua Família e aos seus colaboradores, a Faculdade de Medicina apresenta sentidos pêsames, reiterando a profunda admiração e respeito pelo colega, que foi uma Grande Personalidade, Cientista e Académico ilustre.

Do Mestre que agora nos deixa fica a Saudade e o exemplo de dedicação e empenhamento, que muito contribuíram para a modernização e progresso da Faculdade de Medicina, a qual serviu sempre de forma exemplar. Por tudo isso lhe ficamos todos devedores.

Muito Obrigado, pois, meu caro Professor João Lobo Antunes por tudo o que fez pela sua Casa, pelo “role model” que foi e como viveu a vida pelo exemplo. Até sempre.

Fausto J Pinto

Prof. Doutor José Fernandes e Fernandes

A Sabedoria da Tribo

João Lobo Antunes foi uma figura cimeira da Faculdade de Medicina, da Universidade e da vida colectiva portuguesa nas últimas décadas. Foi exemplo do Homem de Cultura, de quem com justiça se poderá dizer que Nada lhe foi indiferente, na Medicina e na Ciência, na Arte e na Intervenção Cívica.

Numa época em que a Medicina Académica parece atravessar crise de identidade e de futuro, não apenas em Portugal mas também na Europa e nos Estados Unidos – recorde-se o editorial na revista The Lancet sobre a necessidade de recuperar essa dimensão fundamental da Medicina – João Lobo Antunes corporizou o Homo Academicus, cujos atributos são cultura científica, modernidade na acção clínica, compromisso com o Conhecimento pelo exercício da Ciência, objectividade, exercício critico permanente, respeito pelos Valores da Ética e do Profissionalismo.

Como Neurocirurgião, Director de Serviço e Professor Catedrático, renovou a especialidade na Instituição, o seu Serviço é hoje uma referência no panorama nacional e também internacional, formou um escol de colaboradores que saberá dar continuidade à sua obra.

A Neurocirurgia com suas especificidades e organização hospitalar é, em todo o lado, um mundo à parte. Na nossa Instituição ocupa uma área autónoma, distante do resto da actividade cirúrgica, com o seu Bloco Operatório e Cuidados Intensivos próprios, espaço e equipamentos que possibilitam a sua intervenção e que obviamente não podem estar dispersos. Mas integra o mundo e a cultura da Cirurgia, é componente indispensável para a sua Unidade essencial de que falava Owen Wangesteen. Educação em Cirurgia, desenvolvimento da sua dimensão académica, incorporação inteligente e útil da inovação tecnológica e a defesa duma visão ética e humana, são hoje prioridades numa reflexão necessária sobre o Presente e o Futuro da Cirurgia.

Partilhámos interesses comuns. Na Cirurgia, pelas doenças cerebrovasculares e a prevenção do AVC, ele que trazia da sua vivência americana um interesse discreto pela cirurgia carotídea, mas que rapidamente percebeu que, na nossa realidade, éramos nós os cirurgiões vasculares que tínhamos tradição, know-how e expertise, facto que aceitou naturalmente estimulando a nossa participação nas reuniões clínicas do seu serviço e nas reuniões internacionais que organizou, como na da Sociedade Europeia de Neurocirurgia, a que presidiu, e nos distinguiu com o convite para uma lição plenária. Nas nossas especialidades cirúrgicas experimentámos o impacto tremendo da tecnologia, que mudou a imagem da doença e a intervenção terapêutica. O João não escapou ao fascínio da reflexão sobre a mão, que nos identifica e dá nome à nossa arte de curar – Cirurgia é a arte de curar através da mão – continuou essa inquietação que vinha de João Cid dos Santos, que gostava que as suas fotografias incluíssem a sua mão! – mas concordava com o nosso Mestre que, invocando Leonardo da Vinci,  defendia que a Cirurgia como a Arte, era um affare mentale, e que conhecimento, capacidade de decisão, coragem e humanidade são requisitos indispensáveis para a excelência em Cirurgia e não apenas a mão hábil do artesão.

A Educação em Cirurgia necessita de uma reflexão profunda. Há anos que venho expressando a minha preocupação pela excessiva fragmentação da formação dos Cirurgiões, pela ausência de um tempo mais alargado para o que designei por Educação Geral em Cirurgia, antes que o/a jovem aspirante a cirurgião possa escolher o seu caminho futuro, a sua área de intervenção. A aceleração do tempo actual, as vicissitudes das carreiras hospitalares com a necessidade de formação rápida e cada vez mais especializada e até a própria organização hospitalar, têm contribuído para uma visão cada vez mais afunilada – unidimensional(?) – da ciência cirúrgica e para a sua compartimentação excessiva.

No seu livro sobre Hamilton Bailey – A Surgeon´s life Adrian Marston interrogava-se sobre o futuro do cirurgião e cito pela elegância do texto no original …the new professional will be the expert and to label him/her as radiologist, surgeon, technician will become futile…. they will be experts of a new type, servants of society no longer guardians of tribal wisdom.

Eram relativamente frequentes reuniões de trabalho entre os dois, enquanto fui Director da Faculdade, habitualmente curtas, objectivas e sem perda de tempo. Mas recordo um dia, em que a conversa derivou para a evolução da Cirurgia, a necessidade de preservar a Cultura Cirúrgica – the wisdom of the tribe. Partilhávamos a visão, talvez romântica, da necessidade do compromisso com a Arte e a Ciência da Cirurgia e que esse objectivo era uma necessidade para a sobrevivência do ethos cirúrgico.

A dimensão académica nas especialidades cirúrgicas é um problema decisivo para a sobrevivência da Cirurgia Académica, assunto que foi uma das suas preocupações, sobre a qual escreveu dando o testemunho da sua vivência americana. É um desafio institucional que não podemos perder!

O seu compromisso com o Conhecimento através do exercício da Ciência, atributo dohomo academicus, terá sido, porventura, a razão última do seu empenhamento na concretização do Instituto de Medicina Molecular (IMM), aproveitando uma legislação que favoreceu a emergência de Núcleos de Inovação e Investigação com modelos de governação mais dinâmica e menos burocratizante. A mudança foi notável, representou um upgrade na nossa capacidade de interrogação da natureza. Para a sua missão, é fundamental a integração cada vez mais dinâmica com a Escola Médica e o Hospital, esse foi o grande objectivo que presidiu ao lançamento da iniciativa do Centro Académico de Medicina, um consórcio das três instituições, no qual me apoiou e de que foi, também, subscritor. O seu desenvolvimento parece-me imperativo indeclinável, potenciando investigação, inovação, contribuindo para o desenvolvimento da Medicina e para a nossa afirmação como Instituição Académica com verdadeira dimensão europeia, na Ciência, no Ensino e na Prática Clínica. É um marco e um passo decisivo na Reforma indispensável nas instituições académicas da Saúde e na Educação e Formação dos médicos e dos outros profissionais de Saúde.

Era essa cultura médica e cirúrgica que, a par da sua expertise como neurocirurgião, lhe conferia a bird’s eye na arte e na técnica cirúrgica, e que, com a humanidade na relação médico-doente, tornou a sua recordação imperecível. Trabalhámos sempre em Instituições privadas diferentes, mas esse facto nunca impediu a referenciação partilhada de alguns doentes. Transcrevo este mail que recebi de um doente (real! cuja identificação se omite pelas razões óbvias) que é disso testemunho eloquente:

Dr. Um Abraço
Foi com surpresa e dor que ouvi que o Dr Lobo Antunes faleceu.
Foi ele que me levou até si, depois de analisar os meus exames.
Fui lá, pois, as dores que tinha nas costas eram insuportáveis.
É com tristeza que soube da morte dele, pois foi para mim
uma pessoa extraordinária a explicar-me o que se passava realmente comigo.
A todos colegas, família e amigos os meus sentimentos.

Que melhor poderá aspirar um Médico que a gratidão desinteressada e perene dos seus doentes?

Pertencemos a uma geração que viveu e assumiu um desafio de mudança e que foi, também, de grande progresso no nosso Pais. Poderia ter sido melhor? Certamente que sim, a inquietação, a procura permanente de fazer mais e melhor são também atributo doethos cirúrgico.

A reflexão que Reynaldo dos Santos iniciou e outros continuaram sobre a Formação das Elites e a sua prioridade numa nação pequena, mantém cada vez mais actualidade, é um imperativo categórico que a inteligência portuguesa não pode ignorar.

A memória da acção de João Lobo Antunes, da sua inteligência e do seu sentido de Dever serão uma inspiração e um estímulo para todos nós.

FMUL, 2 de Novembro 2016

José Fernandes e Fernandes
Professor Catedrático e Decano do Grupo da Cirurgia

Prof.ª Doutora Leonor Parreira

Um salto quântico

Estávamos em 1998. Eu tinha preparado para as minhas provas de agregação uma proposta para uma nova cadeira opcional em Medicina Molecular a incluir no sexto ano do curso de Medicina. Tinha para mim que uma vez na posse de formação clínica, o aluno-médico estaria bem preparado para absorver o impacto da “nova Biologia” na sua prática clínica e com isso colocá-la ao serviço do doente.

Para meu desconsolo, a proposta não viria a merecer mais que uns vagos cumprimentos circunstanciais do júri, presidido por João Lobo Antunes, pelo que antevi de imediato estar destinada ao esquecimento eterno em algum obscuro arquivo nas profundezas da casa.

O que nunca poderia ter previsto foi o que se seguiu. Como sempre fazia, João Lobo Antunes tinha lido com atenção o relatório do curso, em particular a laboriosa argumentação a favor da causa, contida na introdução. Horrorizado por ter tropeçado algures na palavra detestada “holístico” (confesso que nunca mais a usei), não mostrou qualquer entusiasmo pela hipotética nova cadeira. Limitou-se a dizer-me que o importante não era ensinar o que depressa seria esquecido, o importante era, sim, criar as condições para que a medicina molecular fosse praticada de forma sustentada, e ao mais alto nível, na própria Escola. Criar um “Instituto de Medicina Molecular” na Faculdade era o que teria que ser feito, disse ele.

Recordo a estupefação que senti na altura. Era como se estivesse a presenciar um salto quântico, fenómeno que julgava invisível e reservado ao domínio da abstração teórica da Física. E, no entanto, era-o, pelo que representava de descontinuidade abrupta de “estados de energia”.

Criou de imediato um pequeno grupo para dar andamento ao assunto. Inicialmente éramos três, Rui Victorino, Domingos Henrique e eu própria, a que se juntaria mais tarde Carmo Fonseca. Foi um tempo interessante e intenso, de análise exaustiva de modelos congéneres internacionais, de conversas com colegas de outros países que há muito tinham vivido experiências semelhantes, de reuniões que ele conduzia com a sua admirável e implacável lucidez.

Havia, contudo, a priori, dois problemas a resolver. O primeiro era, evidentemente, criar as condições operacionais que tornassem possível um Instituto deste tipo. À época, a única forma de o fazer era conseguir aceder ao clube seleto dos Laboratórios Associados ao Ministério da Ciência, estruturas com financiamento público privilegiado, entidades meta-universitárias com regras de gestão ágeis, livres do espartilho burocrático da própria Universidade. Os Laboratórios Associados, contudo, só podiam ver a luz do dia por decisão exclusiva ministerial, pelo que fui encarregue de “sondar” a FCT sobre o assunto. Sondei, e Luís Magalhães, na altura o Presidente da FCT, mostrou desde logo aquilo a que hoje é costume chamar-se de “abertura”. Sim, o Ministério veria com bons olhos um novo Laboratório Associado na área biomédica em Lisboa, baseado no “CEBIP”, centro FCT criado anos antes por David-Ferreira.

Subsistia o segundo problema – convencer a Escola a acolher no seu seio, sem o rejeitar, um “corpo estranho”, a ela ligado, mas dela independente. Lobo Antunes, negociador tão hábil quanto pragmático, sabia bem o que o esperava. Mas sabia também, que a liberdade, aliada a uma intransigente exigência qualitativa, são os valores que sustentam a boa ciência e, portanto, não são negociáveis.

Conseguiu. Em 2002, o Instituto de Medicina Molecular era formalmente criado como Laboratório Associado e instalava-se no (pouco) espaço que restava no novo edifício Egas Moniz, já (generosamente) ocupado por alguns institutos de ciências básicas da Faculdade.

Sob a sua orientação estratégica, como Presidente, coadjuvado pela mão firme e eficaz da Diretora Executiva Maria do Carmo Fonseca, o Instituto de Medicina Molecular transformou-se rapidamente num ambiente fervilhante de jovens investigadores, alguns deles vindos de percursos internacionais de excelência.

Dez anos depois, quando decide passar o testemunho a Carmo Fonseca e atribuir a nova Direção executiva a Maria Mota, Bruno Silva Santos e Henrique Veiga Fernandes, eles próprios jovens estrelas ascendentes na ciência mundial, o Instituto de Medicina Molecular era já considerado um dos melhores centros de investigação biomédica do país.

Digo “considerado” porque, como sabemos, em ciência o que vale não é a perceção subjetiva e “local” de valor. O valor absoluto e relativo de uma instituição só pode ser determinado por avaliação externa, isenta e competitiva. Assim, a consideração só passaria a inquestionável facto quando, em 2014, o IMM é reconhecido com Excelente por avaliadores internacionais independentes, no âmbito de uma avaliação global de todas as unidades de I&D do país.

O que essa avaliação não podia mostrar, contudo, era o impacto da instituição na própria Universidade. Em Outubro de 2015, estava eu ainda em funções governamentais, Maria Mota convida-me para dizer “umas palavras” numa cerimónia pública de apresentação de uma ERA-CHAIR do IMM (CAML).

Pedi que me fornecessem dados estatísticos desagregados sobre a Universidade de Lisboa, no que respeita à conquista de fundos no Horizonte 2020, o mais competitivo programa europeu de financiamento para a ciência. Confesso a surpresa (minha e de todos): 45% dos cerca de 33 milhões de euros obtidos pela Universidade de Lisboa nos dois primeiros anos daquele Programa (2014 e 2015), tinham sido capturados pelo Instituto de Medicina Molecular.

A que se devia então este singular sucesso? A competitividade internacional em ciência é, obviamente, um proxy de qualidade, e a qualidade, por sua vez, é sempre uma derivada da atividade de indivíduos. Procurei, e a explicação surgiu, cristalina: o Instituto de Medicina Molecular era, à data, o centro de investigação público com mais grantees doEuropean Research Council, e uma das instituições com maior número de Investigadores FCT, eles próprios selecionados por concurso internacional competitivo. O Instituto de Medicina Molecular tinha-se tornado, inequivocamente, um polo atractor de talentos.

Estes números pouco nos dizem, no entanto, sobre a imaterialidade da influência do Instituto na própria Faculdade de Medicina. Não tenho dados que me permitam um juízo objetivo. Sei apenas que o Instituto de Medicina Molecular é hoje motivo de orgulho para a Faculdade, vários dos seus Professores são nele Investigadores principais, os alunos usufruem do contacto com laboratórios e cientistas, a investigação clínica adquire progressivamente a pujança derivada da pesquisa pluridisciplinar. Por seu lado, o Hospital, elemento fundamental da trindade CAML, invoca sistematicamente a “parceria” com o IMM como peça curricular distintiva entre os centros hospitalares nacionais.

A minha perceção, como observadora externa que não pertence ao IMM, é a de que, o caminho se tem feito caminhando (y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar), mas o desígnio maior de Lobo Antunes – a fértil e harmoniosa cooperação entre ciência básica e a medicina clínica, alicerçada em impecáveis valores éticos e de ethos institucional – ainda não foi plenamente atingido.

Esse é o desafio, e o imperativo moral, das atuais lideranças nos anos que se aproximam.

Tarefa fácil e de sucesso garantido? Não o é certamente e ele sabia-o, melhor do que ninguém. Mas, como diz Edward O. Wilson, no seu luminoso livro Consilience. The Unity of Knowledge, “The moral imperative of humanism is the endeavor alone, whether successful or not, provided the effort is honorable and failure memorable. If those committed to the quest fail, they will be forgiven. When lost, they will find another way.

Leonor Parreira

Lisboa, 30 de outubro de 2016

Prof. Doutor Henrique B. Castelo

Carta a um Amigo

“Parce que c’était lui ;

 Parce que c’était moi”

 

Montaigne

João

São 12h 24m de sábado, 29 de Outubro de 2016.

Acabo de chegar a casa e apeteceu-me escrever estas linhas para te dizer, com a ingenuidade própria do adolescente alentejano de 18 anos que conheceste, que sinto muito a tua partida e sei não ser fácil o tempo vir a apaziguar este vazio.

Com a tua habitual discrição deixaste-nos hoje mais pobres e mais sós, depois de um longo período de sofrimento que enfrentaste com enorme coragem, lucidez e serenidade que aumentou muito o respeito e grande admiração de todos quantos te conheciam.

Prometo não te maçar com o que te vou dizer nestas linhas.

A primeira e mais importante é, no seguimento da nossa última conversa de toda uma tarde, para te tranquilizar sobre uma das tuas preocupações e dizer-te que apesar da dureza sobre-humana destas últimas semanas, te mantiveste igual até ao fim.

Houve dias difíceis, muito difíceis, que ultrapassaste com resignação determinada, superior dignidade, coragem e a elegância com que sempre viveste.

Nem podia ser de outra maneira para ti João.

Como te disse, não tinhas nada a temer, porque tudo em ti era tão genuíno e natural que nada poderia modificar. Mesmo que acontecesse uma catástrofe e alguma inquietação aparecesse a querer vir perturbar-te, nada se alteraria porque tu e a tua essência eram a tua pele e, essa João, tu não a podias despir.

Sim João. Está tranquilo porque até ao fim desta Etapa da tua Vida, mantiveste a Elegância de sempre.

A segunda linha é para te dizer que o País se portou bem contigo nestes dias.

As mais Altas Figuras do Estado, passadas e actuais, prestaram-te homenagens de um modo que senti serem sinceras na expressão, verdadeiras nas acções e sóbrias e elegantes nas intervenções.

Foram chegando mensagens de doentes, dos mais mediáticos aos mais anónimos e destes últimos, que sei serem as que mais apreciarias, as palavras eram de reconhecimento e gratidão ao Cirurgião, claro mas, sobretudo, ao Homem que os tinha ajudado, muitas vezes até no modo de viver.

Da extensíssima cobertura da Comunicação Social, penso que foi o teu o jornal, o que lias regularmente todos os dias, quem melhor te definiu, chamando para metade da 1ª página, a afirmação de que « partiu o homem que uniu a ciência à cultura ».

É verdade, esta é a mais sintética, mais completa e melhor definição do « homem público », Cidadão íntegro, interventivo e coerente que conheciam. Foi nessa mesma edição que três dos Amigos que mais estimavas, Manuel Sobrinho Simões, Luís Portela e Walter Osswald, lamentando a perda que a tua partida representa para eles e para o País disseram, em síntese : Cirurgião, Académico, Intelectual, Cientista, Humanista, nas ideias e na acção, de Cultura vastíssima, global e multifacetada, com uma Memória férrea e Inteligência notável, viva e fulgurante no raciocínio … ;… Perfecionista, estudioso, com grande sensibilidade clínica, a forma delicada, competente e rigorosa como servia os seus doentes era inigualável, algo que talvez só eles possam testemunhar apropriadamente… ;… Conciliava uma grande capacidade analítica com um enorme poder de síntese … ;…Raciocinava profundamente sobre os mais diversos temas, escrevia muito bem e tinha grandes qualidades de oratória … ;… Era um homem muito educado e culto, de fino trato, e de elevado nível intelectual … ;… os Ensaios obras de consulta obrigatória pela pertinácia dos temas, lucidez da abordagem e virtuosidade dos conteúdos … ;…a sua dimensão intelectual e a sua competência profissional, aliadas à sua enorme força interior, à sua grande sensibilidade, ao seu humanismo e ao seu poderoso bom senso, faziam dele um ser invulgar com o qual muito aprendemos e do qual guardaremos uma imagem muito bonita… ;… Ensaísta e escritor, Elaborador de doutrina Ética, cultor verdade e da beleza, é este o retrato de um HUMANISTA … ;… Nele nos inspiraremos para procurar servir, cada vez melhor, os interesses de saúde das pessoas … ;… é difícil, senão mesmo impossível, encontrar quem se identifique tanto com o que é a (boa) saúde que se faz em Portugal como João Lobo Antunes.

Além desta faceta de Homem Público há duas outras que completavam a essência tua condição que, com não menor dimensão e qualidade, completavam a tua identidade. As do Homem Institucional e Privado.

Na dimensão Institucional, eras absolutamente Formal, porque as Instituições são mais importantes que cada um de nós e as responsabilidades são para se levarem a peito.

Homem de princípios, causas e objectivos, sempre afirmados com clara transparência de atitudes e opiniões procurados com nobreza de espírito e vontade inquebrantável que nem a condição de saúde impediu que permanecesses, até ao limite extremo das tuas capacidades físicas, igual a ti próprio. A estas particularidades associavas uma inabalável vontade de fazer que, absolutamente avassaladora arrastava todos os obstáculos que, independentemente das intenções, pudessem aparecer no caminho que sabias levarem-te à razão. São disso exemplos, mais ou menos, recentes, o Instituto de Medicina Molecular e a Universidade de Lisboa.

Também a generalidade das Instituições que serviste manifestaram com sobriedade e nobreza a dimensão da perda. Um desabafo, para lamentar que uma das Instituições, talvez a que mais beneficiou com a tua presença e intervenção, foi pequenina. Noticiou a tua partida, como que em nota de roda pé, de modo tão despudoradamente burocratizada que, se todos se sentiram incomodados, maguou profundamente todos os teus Amigos que diariamente te acompanhavam.

Figura impar enquanto médico, professor, escritor, eticista e organizador de um moderno e diferente Edifício da Saúde, onde, tenho a certeza, quererias que fosse praticada uma NOVA MEDICINA assente no serviço e respeito pela dignidade do Homem Doente, centrada no conhecimento, balizada pela ética e certificada pelo trabalho culto e de qualidade. Como sempre dizias, recordando o Prof João (Cid dos Santos), lembrem-se que a Medicina será sempre mais rica e melhor, quando praticada por Homens de Cultura.

Foi neste domínio que alguns, dizendo que te conheciam sem terem a menor ideia de quem eras, confundiam determinação com intolerância, coerência de princípios com arrogância, análise fria de estratégias com depreciativo distanciamento.

Não te conheciam, de facto, mas há um detalhe João que não quero deixar de te recordar. Ninguém ousou associar ao teu nome a falta de verdade, deslealdade, medo, intriga, cobardia ou inveja. Se as outros adjectivações te deixavam indiferente, tenho a certeza que estas te enchem de orgulho e gostas de saber.

De ti, da tua essência e condição, não posso dizer nada que não saibas o que penso, mas não quero deixar de recordar três aspectos.

O meu respeito e admiração por ti começou numa manhã de Janeiro de 1962 quando regressados das primeiras férias de Natal da Faculdade, o nosso grupo lamentando a falta que tinhamos sentido uns dos outros, propunha que nas férias da Páscoa fossemos passar uns dias juntos a qualquer lado. Tu disseste que tinhas que ver se podias e … viste na Agenda que já tinhas compromissos. Agenda ? Compromissos a esta distância? aos 17 anos ?

Agenda tinha o meu Pai !  Eu precisava lá de Agenda !

Não há muitos anos, durante uma das nossas conversas em que falávamos das nossas vidas e intimidades que sempre recordarei mas já esqueci, muitas vezes em longos silêncios que é como se dizem as coisas mais importantes, disseste que o teu segredo foi nunca teres perdido tempo ! Pudera, respondi, se aos 17 anos já tinhas Agenda para saberes como o usar bem !

Conversámos várias vezes sobre o ambiente, nem sempre agradável, da Sala de Espera de Doentes na Cuf. Uma vez referi o facto de me ter apercebido que o ruído da Sala baixava quando passávamos. “É a maneira de os doentes expressarem o seu respeito”, respondeste.

Um tempo depois, ias uns bons metros à frente e senti-me envergonhado do comentário. Quando passaste o ruído não diminuiu. Parou. Fez-se um silêncio quase litúrgico e tive oportunidade de confirmar depois que o ritual era sempre esse. Com razão porque, afinal, tu eras a expressão do distanciamento do cirurgião que operava o cérebro.

Acontece que só alguns sabiam que esse distanciamento acabava logo depois de 2 ou 3 minutos de conversa, em que o doente se apercebia que tinha caído a máscara com que te protegias da tua timidez natural, para te passares a mostrar efectivamente como eras : terno, e com um coração enorme cheio de amor para dar.

Homem Bom que, como alguém disse nestes dias, o João não fazia o que gostava, gostava do que fazia e eu posso acrescentar que gostava e fazia com paixão.

Com paixão pela arte e ofício da Neurocirurgia, pela clínica, mas também pelo laboratório. Com paixão pela FML e pelo HSM e não menor pelo IMM. Com paixão pelo pensar, sem peias nem barreiras, por isso, Livre, Humanista e Cidadão que se assumia como angustiado metafísico, que acreditava no bom coração dos Portugueses, apesar da mágoa com que via o inadequado desenvolvimento de uma sociedade que mantinha os portugueses que estão no Eça.

Com paixão, com que ensinava, miúdos e graúdos. Com paixão, pelo que lia, pensava, dizia e escrevia, mas com não menor paixão pela música e pela pintura. Com paixão, pela limitação, simples, das capacidades de outros. Com Paixão, pela Família. Com paixão e optimismo como vivia, apesar de dizer que o pessimismo é uma profecia que se cumpre. Com paixão pela integridade na crítica, minuciosa, dura e implacável porque nunca queria menos que o perfeito. Era ainda com paixão que, não toleravas a preguiça e a irresponsabilidade e que fulminava a ignorância arrogante que destruias arrasadoramente num ápice.

Mas, era ainda com amor e desta vez com COMPAIXÃO, que acolhias aqueles que sofriam e que tu sabias teres já pouco mais a oferecer que o calor da tua mão e o consolo compassivo do teu gesto e palavra.

UM MODO DE SER muito próprio, onde não havia lugar para esconder dúvidas ou preocupações, fazia emergir o compromisso sacerdotal da vida da profissão, em coerência com coragem e valores da ética, da moral, da ciência em respeito pela dignidade dos doentes, que tratavas com a eficiência e o carinho com que as nossas avós bordavam, em panos de linho, as obras-primas dos seus enxovais.

Estas condições e circunstâncias, inconciliáveis com irresponsabilidade, falta de rigor e deslealdades, faziam-te sentir que o dever assim cumprido te dava a libertadora tranquilidade de consciência que te permitia viver NUMA CIDADE FELIZ.

Como todos nós cirurgiões, cumprias a Arte da Neurocirurgia, com o cérebro para avaliar e decidir, com o coração para a determinação do gesto do momento e com A MÃO, este extraordinário instrumento com que o Criador nos equipou, para o exercício da componente artesanal do Ofício mas, também, para OUTROS ENSAIOS onde, em conflito com o papel, passavas a escrito o que pensavas, o que o angustiava e o que o libertava.

Em suma, fruto das suas condições e circunstâncias, João Lobo Antunes é uma Personalidade que, no mundo da cultura e da ciência, é referência internacional no âmbito das suas Áreas do Saber Médico, das Artes e da Cultura.

 Mas, é-o também, em outras, diversas e multifacetadas, áreas de intervenção, como são as da Ética para as Ciências da Vida, domínio em que me atrevo a dizer que, de acordo com que pensam ser a essência dessa mesma Vida, têm subjacente nas suas posições, o pensamento de Carrel, quando diz que“ … o fundamental é a obtenção do progresso da pessoa humana. Porque a qualidade da vida é mais importante que a própria vida…”.

Encarregado do teu laudacium quando, em 2009, te atribuímos o Prémio Academia Pedro Hispano disse que “… pela Obra, Exemplo e Escola, marca uma geração e deixa UM ECO que, ao contrário do que pretende e à semelhança de Pedro Hispano, não será SILENCIOSO, mas que, tal como o de João XXI, vibrará, como exemplo de competente e lúcida inteligência, entusiasmo e motivação, em luta constante pelo desenvolvimento do saber e das Sociedades..”.

A propósito… Lembras-te João, ao contrário das inúmeras ocasiões em que aconteceu naturalmente o contrario, esta foi a segunda e última vez que “eu te ganhei”. A primeira foi, por razões que falámos longamente na altura e repetidamente depois em conversas tão íntimas que continuarão a ficar só para nós, quando te sentiste obrigado a acabar o curso na época de Setembro quando eu acabei em Julho!…

Dos nossos Mestres da Faculdade penso que João Cid dos Santos e, com maior impacto Juvenal Esteves, terão sido os que te deixaram marca maior.

Com o nosso Professor João coincidias na perspectiva da cultura e do entendimento do trabalho, que cultivavam de forma dura, contínua, prática e silenciosa, atitude que João Cid dos Santos, ilustrava dizendo “… não basta que se diga que a vida de médico é dura … é necessário que o seja …”, pensamento que, como sabes, fiz gravar na parede da Sala de Reuniões do Serviço.

Os jovens deste nosso tempo dirão que o seu Professor João, TU, e não olhes para mim com aquele sorriso maroto meio de lado que diz tudo, sei que estás orgulhoso com a comparação, mas podes estar certo que é a verdade e não a amizade que agora fala.

Da nossa Amizade já disseste e escreveste. Resta-me acrescentar que era uma amizade total, da entrega, sem limites nem restrições, que passava por tudo dizer e tudo fazer de acordo com o pensamento de cada um, acabando sempre por respeitar a decisão do outro. Porque é que só tu é que me dizes essas coisas dessa maneira? Porque sou teu amigo e não me importo que te aborreças, respondia.

A conversa seguia o seu rumo, muitas vezes através de longos silêncios, até ao final … pois é! é isso mesmo! … sem mais problemas ou dúvidas. Era assim, vivida por inteiro, absoluta, incondicional, discreta e silenciosa.

A nossa amizade, era e continuará a ser sempre silenciosa e presente e, como me disse o Meu Amigo Charles Proye, de Lille, agora não apenas com significado metafórico, comme les étoiles. On ne les voit pas tout le temps, mas nous savons qu´elles sont toujours là.

Os miúdos de hoje dirão que o seu Professor João vivia numa inquietação pelo saber, pelo bem e pelo belo porque, sabendo que são questões sempre em aberto e fonte de procura interminável, caberá a cada um a responsabilidade de dar o melhor de si e, de algum modo, contribuir com a sua parte para a procura do caminho que tu, porque Ouvias Com Outros Olhos, vias mais baixo e ouvias mais longe segredos que te revelavam a verdade dos caminhos que outros não viam porque não podiam ouvir.   

Reconhecidamente uma das Mentes mais brilhantes, multifacetada no fazer, no dizer e no pensar sólido, profundo e reflectidamente contraditado, tu João, ficarás como um farol radioso desta Geração.

Foste um daqueles em que o nosso Professor João pensava quando, em 1949, disse que era necessário “… que surja uma nova geração de navegadores, … desta vez imóveis … mas com asas no espírito … porque … só assim poderá nascer uma nova Aurora … “

Estamos felizes e tranquilos, porque sabemos que o teu exemplo fará Nascer Novas Auroras.

A tua essência feita de valores e princípios de respeito, dignidade, rigor, trabalho e ética, com que sempre viveste expressa um carácter feito da aliança da amizade com a compaixão, a ternura e o amor, tornou-te, pela elegância e cultura, um Príncipe da Renascença e, também por isso, mantinhas o culto da elegância e da vaidade com a beleza … nas artes, nas letras, no ambiente, na música e, naturalmente, no feminino.

Conseguiste não deixar nada por acabar e na medida do possível, não deixaste pontas soltas. Fico à espera que me faças chegar o Relato de Como te Fizeste Neurocirurgião e, porque Les Éssais seria o que levarias para uma ilha deserta vais poder agora conversar e rir, na Torre ou nas Maçãs, longamente com o teu Mestre e Amigo Michel, Seigneur de Montaigne.

Era sempre muito bom o tempo que passava contigo porque, como tu conheces bem a Lição do Meu Avô Henrique quando tinha 10 anos, fazias-me sentir mais inteligente, mais forte, mais culto e mais rico.

Agora já não precisas de me dizer … não me faças chorar …, porque agora, com a tua razão de sempre, quando chorar é sobretudo por mim que o farei.

Neste intervalo vou ter muitas saudades tuas mas, como sempre,

Até logo, Meu Amigo, Meu Irmão

Henrique

 

 

 

CAML

O Instituto de Medicina Molecular, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e o Centro Hospitalar de Lisboa Norte, corporizados no Centro Académico de Medicina de Lisboa, nas pessoas dos seus dirigentes máximos, apresentam um profundo sentimento de pesar à Família do eminente Professor Doutor João Lobo Antunes.

O Professor Doutor João Lobo Antunes foi um vulto multidisciplinar, nacional e internacional, que abrangeu com sólido conhecimento e elevados dotes intelectuais áreas tão diversas, como as Neurociências, em particular a Neurocirurgia, e a Ética, entre demais. Brilhante académico, possuidor de uma invulgar cultura e de uma belíssima escrita, destacou-se como exímio Neurocirurgião e Mestre de gerações que dele herdaram a excelência, tendo sido um incansável e dedicado Médico junto dos seus doentes.

Chamado a tantos desafios e tão diferentes da vida pública e social, a todos respondeu com natural elegância, afabilidade no trato e empenho, garantindo o seu êxito e dando generosamente também aí impares contributos ao País.

A vida profissional do Professor João Lobo Antunes está espelhada de forma indelével nas nossas instituições, nas quais deixou páginas de excelência, seja na Faculdade de Medicina de Lisboa, como um dos mais notáveis Mestres desta prestigiada Escola Médica, quer no seu Hospital de Santa Maria, como um dos mais ilustres Neurocirurgiões de impar reputação internacional e, mais recentemente, no Instituto de Medicina Molecular, projecto da sua responsabilidade e que em pouco tempo viu reconhecida a sua capacidade e excelência internacional, como um dos mais conceituados e inovadores centros de investigação médica.

Nesta hora homenageamos o Homem invulgar, marcante da sua geração e destas instituições, que o perderam, mas que saberão manter vivo o seu excepcional legado.

Lisboa e CAML, 27 de outubro de 2016

Prof. Doutor Fausto J. Pinto – Director da FMUL

Dr. Carlos das Neves Martins – Presidente do CA do CHLN

Prof. Doutora Maria do Carmo Fonseca – Presidente do IMM

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